Thursday, June 21, 2012

TRABALHANDO EM FRENTES PLURAIS

Saudade por uma boa causa.

Pela primeira vez em 19 meses neste empreendimento para a sustentabilidade, separamos a equipe dfE. Como estamos atingindo o fim deste primeiro ciclo de aprendizagem no exterior, e, o que aprendemos até agora levou à necessidade de recolher mais conhecimento específico e profundo, trabalhar em diferentes frentes provou ser necessário para sermos mais assertivos.

História, arqueologia e antropologia são claramente aspectos fundamentais para a compreensão das sociedades contemporâneas e suas questões, quer sociais, ambientais ou espirituais.

Por isso, Raquel foi para a China onde vai, por cerca de 3 semanas, estar em Xi'an, onde a cultura chinesa antiga ainda pode ser sentida no ar. Há também os guerreiros de Terra-cota, um impressionante monumento de fato relevante para a compreensão das sucessões de dinastias da China, além do desenvolvimento histórico e contexto atual.

Em outra frente, mais associada a alternativas sustentáveis para a vida humana na Terra, vou permanecer esse período na Tailândia, para um curso de Design em Permacultura (PDC), oferecido pela Panya Project, localizado no novo site Sikhiu, uma fazenda chamada Rak Tamachat.

Permacultura é um interessante conceito, "descoberto" por nós há pouco tempo e que parece ser uma excelente alternativa para muitas questões humanas, como desordem social, degradação do meio ambiente global e local, bem como o vazio espiritual (não religiosa) ou a desconexão da sociedade com a vida. Pode parecer "mágica", mas não é. Permacultura é natural. Vale a pena conhecer este assunto.

Em breve vamos escrever um post dedicado e mais abrangente sobre Permacultura, que parece ser onde vamos concentrar boa parte da nossa energia daqui para a frente. Claro, queremos compartilhar tudo isso como quem se interessar.

Uma outra iniciativa do dfE serão as viagens à pé. Podemos chamar este projeto de "Santiago de Compostela em todo o lugar". Eu, pessoalmente, gosto da idéia de viajar longas distâncias a pé. Então, como um lançamento desta empreitada, vou fazer parte da viagem para a fazenda onde será o PDC caminhando, por cerca de 20 km. Vou certamente relatar como foi.


Literalmente, pé na estrada...


Em 9 de julho, voltaremos a nos juntar, em Beijing (Pequim), para participarmos de um projeto de 40 dias patrocinado pela UNESCO: World Heritage Volunteers. Atuaremos como voluntários para diversas atividades em três locais diferentes: na Grande Muralha, o Monte Sanqingshan, e Qufu. Voluntários internacionais e chineses vão ensinar adolescentes sobre a história e o significado dos 3 sites, a sua importância como Patrimônio Mundial, bem como Confucionismo. Também realizaremos trabalhos prático de desenvolvimento e manutenção destes patrimônios históricos tombados pela UNESCO. Estamos muito ansiosos para este projeto!

Novos posts em breve!

Francis (na Tailândia, com um olho na Rio +20)

Thursday, May 17, 2012

UMA ILHA ENTRE 7000 – ESPECIAL BOHOL

Como uma comunidade pode evoluir em meio a vizinhos menos conscientes



Bohol é uma ilha (ou arquipélago) na região central das Filipinas, destino turístico de muitos Europeus, Australianos e ultimamente, Russos, Chineses e Coreanos. O principal destino é a praia de Alona, na ilha de Panglao. Bohol é muito conhecida pela sua interessante formação geológica, as pequenas montanhas chamadas de Chocolate Hills e pela presença endêmica do Tarsier, um dos menores primatas do Planeta.


Maravilhoso pôr-do-sol na Praia de Alona...


... e logo depois, este fantástico buffet.
Mas não se iluda, é MUITO caro!

Em Panglao é possível se hospedar num quarto para casal de razoável qualidade, bem próximo a praias maravilhosas e bastante conservadas, com o aluguel de uma pequena scooter incluído na diária e ainda fazer 3 refeições de comida local, tudo por menos de USD 50 por dia para 2 pessoas.

Apesar de haver rios com uma certa abundância de água doce – dependente de regimes estáveis de precipitação, percebemos que os habitantes da ilha e sua grande população volátil de turistas ainda dependem muito de suprimentos e serviços externos.

Aqui também se percebe um sério problema, recorrente na Ásia. Não há água potável da rede pública! Cada gota tem que ser comprada…

A melhor solução que encontramos para evitar as infames e ultra-poluentes garrafas de plástico é - sempre - ter conosco a nossa própria garrafa e completa-la sempre que possível, de bombonas retornáveis.
Isso polui muito menos e é, em média, 20 (VINTE!) vezes mais barato.

Os aglomerados urbanos da ilha já apresentam sérios problemas de abastecimento de água. Na pousada onde primeiro nos hospedamos, toda a água era diariamente fornecida por caminhões a um custo provavelmente elevado, já que não há viabilidade para sistemas de bombeamento público.


A natureza é relativamente preservada. Boa parte da Ilha principal é protegida pelo Parque Nacional onde estão as Chocolate Hills. Mas os manguezais da ilha sofrem pressão pela cultura de palma, uma palmeira baixa que se desenvolve em solos salobros e alagadiços. A palma é usada para produção de óleo comestível e combustível, que apesar de baixa qualidade, é muito consumido na Ásia. A devastação imobiliária também ameaça os sistemas naturais da ilha, principalmente próximo à costa.

Natureza preservada ao longo de uma boa
porção de Loboc River.

A Palma que vem sendo cultivado por
óleo barato: degradação manguezais.


A principal cidade no Arquipélago tem aeroporto e porto. Chagamos lá num Ferry vindo de Cebu City. A cidade, apesar de pequena, é poluída, com transito caótico, comum às cidades Filipinas.


Engarrafamento na pequena cidade de Tagbilaran,
o maior centro urbano em Bohol.


Já ao sairmos da zona urbana, as coisas mudam. Os habitantes destas ilhas demonstram um desenvolvimento especial. Existem na região museus, parques ambientais, centros de estudos e conservação. Até mesmo alguns empreendimentos turísticos, como pousadas e hotéis, em geral criados e geridos por estrangeiros, têm características ambientalmente menos degradantes, se comparadas a outras regiões onde estrangeiros investem apenas para explorar os recursos até a exaustão, e vão embora.


A pousada "Reggae" em Panglao, de propriedade de um casal francês, construída basicamente em bambu e outros materiais locais.

Bohol é um emaranhado de belezas. Dirigir uma motocicleta em volta da ilha é uma aventura cheia de belas paisagens e lugares interessantes para visitar, como o Parque de Preservação dos Tarsiers, as Chocolate Hills, a vila de Loboc e sua enorme e interessante ponte para o nada.


Passeio de moto pelo interior de Bohol. Belas paisagens.

Cachoeira refrescante em Bohol.


Os Tarsiers não são mantidos em cativeiro.

O Tarsier.
Durante o dia, muito sonolentos e praticamente imóveis.
À noite, muito ágeis à caça de suas presas. Quando nascem, são do tamanho de um dedo polegar.


A formação intrigante das Chocolate Hills. Aqui a vista no Parque de Conservação National Geological Monument.

O material constituinte das Chocolate Hills pode ser visto claramente em algumas falésias na costa de Bohol. São conchas, corais e outros vestígios de vida marinha, revelando que a região já foi fundo do mar.

Corais, conchas e materiais sedimentares
que formam as Chocolate Hills
Aqui, informações mais precisas sobre
a formação das Chocolate Hills

Restaurantes flutuantes na charmosa
vila de Loboc.

Um edifício histórico em Loboc, onde seria hoje
a cabeceira da "ponte para lugar nenhum".



Esta é a construção abortada de uma ponte que forçaria demolição de prédio histórico do no outro lado da estrada. Este pretenso Belvedere  é certamente um dos mais  resistentes e caros do mundo.


No Santuário das Borboletas se pode ver...

...os insetos acasalando...

... e até criar asas!

Mas, apesar de acharmos tudo isso interessante, o que realmente nos encantou foram as iniciativas sustentáveis de Bohol, como as fazendas orgânicas, que também são centros de desenvolvimento social, cultural e de artes. Projetos que atraem muitos jovens e pessoas da comunidade, valorizam a produção local, o conhecimento e a sabedoria ancestral dos mais experientes.

Visitamos uma fazenda de abelhas que é um espetáculo de consciência e desenvolvimento sustentável. Uma Filipina idealista, entendendo que havia algo de muito errado no sistema social e ecológico onde foi criada - no Hawaii (USA) - resolveu retornar ao seu país de origem e “fazer algo”.


Morou seis meses em uma palhoça na terra que era de seus pais, em Panglao, que estava, de certa maneira, abandonada. Neste tempo, apenas refletiu. Idealizou então a Bee Farm, que é hoje uma fazenda modelo, com mais de 200 colaboradores que, orgulhosamente, apresentam aos visitantes seus talentos e suas áreas de responsabilidade no projeto.


Em pouco mais de 10 anos, desenvolveu, coletivamente, um complexo sustentável que compreende apicultura, horta, fazenda, pousada, centro de convenções, restaurante, atelier de artes plásticas, tecelagem, cozinha, loja de toda a sorte de produtos orgânicos, etc.


O deck da pousada, construído com
materiais disponíveis no local.

Telas feitas de folha de côco, e pintadas pelos artistas da Bee Farm.

Loja de Comércio Justo.


Muitos produtos orgânicos e deliciosos.

Pudemos visitar e confraternizar com tecelãs operando seus teares manuais, artistas plásticos pintando e esculpindo. Veja nas fotos:


Divertida confraternização com o tecelões da Bee Farm e...

... dali, tecidos e telas muito bonitos e únicos são produzidos

 Conhecemos também a horta orgânica com muitas e muitas ervas aromáticas, hortaliças e legumes que vão direto para o não menos maravilhoso restaurante orgânico da fazenda.


A horta produz todos legumes e verduras necessários na fazenda.

Salada de flores. Uma iguaria deliciosa na Bee Farm.

Uma parede, decorada com casca de côco: reforço e beleza natural nesta parede.


Sentimos que nesta ilha as coisas estão se desenvolvendo desta forma porque algumas pessoas inteligentes - munidas de ética, conhecimento holístico e principalmente coragem para trabalhar fora do sistema – iniciaram pequenos projetos sustentáveis, cresceram e inspiraram muitos outros da comunidade a iniciar seus próprios projetos. Paira no ar perspectivas sociais e ambientais diferentes, otimistas, mais sustentáveis e energéticas!


Um pouco da ótima energia de Bohol!


Também é fácil perceber na feição daqueles que visitam estas fazendas – e são muitos - uma grande inspiração para realizar projetos semelhantes nos seus países e até para reavaliar seus estilos de vida e objetivos. Não foi diferente para nós, que nos sentimos muito inspirados pela Bee Farm.


Desejamos que todos possam refletir um pouco e sentir, assim como nós, motivados a procurar algo novo e otimista para a vida! Um belo exemplo este projeto sustentável da zzzz Bee Farm, não?!

Um grande abrazzzzzzço!





Provocação: você já calculou a sua pegada ambiental?

Monday, February 6, 2012

REFLEXÃO SOBRE MEIO AMBIENTE NAS FILIPINAS



Do ponto de vista ambiental, Filipinas tem muito o que fazer. Embora os Filipinos parecem  estar conscientes sobre aquecimento global, seu desejo explícito por consumir muito sinaliza a falta de compreensão sobre a interrelação entre a demanda individual e  seus impactos, não sendo exceção à maioria dos habitantes dos países industrializados e em desenvolvimento.


As cidades são superlotadas de veículos.
As cidades das Filipinas que conhecemos parecem muito com as do ocidente no que diz respeito à poluição atmosférica, sonora e visual. As cidades são congestionadas, muito sujas e poluídas - muitas pessoas usam máscaras nas ruas. No entanto, alguns aspectos da cultura que precederam as invasões ocidentais permanecem, por exemplo, comida. Filipinos comem muito arroz e peixe.


Esta pequena ilha, próxima a grande ilha de Cebu é lotada de
 casas e com sistema de saneamento precário.
No ônibus intermunicipal é comum termos que dividir o assento com carangejos vivos, transportados em baldes.
É muito comum também o transporte dos itens mais curiosos sobre motocicletas.
Quase toda a nossa bagagem em uma viagem de motocicleta.
É possível hospedar-se em pousadas, à beira mar, com uma motocicleta inclusa . Tudo por 13 dólares. Mas a manutenção (neste caso troca do cabo de freio) fica por conta do hospede/usuário. Diversão assim mesmo.


Afastando-se dos centros urbanos, técnicas de construção tradicional são predominantes, principalmente em  bambu e folhas de palmeiras. A natureza ainda é exuberante, apesar de uma parte relevante de floresta já ter sido derrubada e a pesca com dinamite ainda é tolerada.
Há uma explosão populacional acontecendo aqui. São 100 milhões de Filipinos, em sua maioria jovens. Isto perfaz uma densidade populacional de 330 pessoas por km ² distribuída entre mais de 7000 ilhas. Impressionante. Mesmo com milhares de km de costa, inúmeras baias, canais, rios e lagos, não vimos nenhum barco ou canoas à vela. O transporte de passageiros e cargas são baseados em veículos movidos a combustíveis fósseis. Além disso, é comum encontar tarifas de barcos rápidos mais caros do que tarifas aérea, por isso, é comum voar entre ilhas ao invés de viajar de barco.
Por outro lado, há um aspecto importante no transporte terrestre nas Filipinas que deve ser ressaltado. Como exemple, viajamos muito usando, sempre que possível, os meios mais populares. Jeepney é um deles. Legado da II Guerra Mundial, jipes foram deixados para trás ao final da guerra e imediatamente aproveitados pelos locais que os estendiam para acomodar muito mais pessoas. Com entrada pela parte de trás do veículo, dois longos bancos e janelas amplas e com cortinas de lona.  Entramos um jeepny, pagamos US $ 0,50 para percorrermos 40 km. Quando entramos, julgamos que ali caberiam uns 12 passageiros. Quando o motorista parou de recolher mais pessoas, havia 32 humanos no Jeepny! Sentiu o aperto? Mas foi muito divertido! Não é raro fazer bons amigos nestas situações.

Este é um "Jeepney". Não conseguimos contar quantos estão embarcados aí.

Neste Jeepney viajamos 40 km em 32 pessoas.
Quando entramos pensamos que caberiam umas 12 apenas.




Também muito comum são os triciclos (ou tuk-tuks). São motos  - em geral de 125cc - com um side-car que tem assentos, porta-malas, teto, tudo utilizado para carga e passageiros. Mais uma vez fizemos a aposta de quantas pessoas caberiam neste veículo. Quatro foi o veredicto. Depois de um tempo, não foi difícil encontrar triciclos com 12 ( D - O - Z - E ) Filipinos dentro (e em cima, ao lado, pendurados, etc) de um único triciclo, além de alguns pacotes.


Em Cebu City, contamos até 12 pessoas num único triciclo. Neste daí, tivemos a sorte de poder nos encontrar com o Capitão Clemens, do Infinity, e FAmília. Claro que nos aventuramos juntos (6 mais o piloto) num triciclo até uma cachoeira.  

Apesar de tudo isso parecer ser perigoso, especialmente quando as regras de trânsito são escritas "na buzina", durante 2 meses não testemunhamos qualquer acidente. A maioria dos motoristas é cuidadosa e dirige devagar. No final, este excesso de carga conta positivamente para as Filipinas com um meio de frear os efeitos do aquecimento global, uma vez que as pessoas abrem mão do conforto em benefício do uso mais eficiente da energia.


No triciclo com Rhian, filha do Capitão Clemens e Sage. A Rhian é a menina que nasceu dentro do dingue, no convés do Infinity, em Maio de 2011. Ela está muito esperta e saudável. Continua vivendo com os pais no veleiro.
O lixo é um problema. Utensílios e embalagens descartáveis para pequenas frações são extensivamente utilizados para qualquer finalidade. Pouco do plástico descartado é reciclado. Refeições são vendidas em sacos plásticos; luvas de plástico para vender água e comer já que muitos não usam talheres, saco plástico para cobrir o prato, canudos de plástico para cada bebida, plástico, plástico e plástico .. . argh!. Embora os typhoons e as inundações são mais freqüentes a cada ano, as autoridades continuam adiando discussões climáticas e as pessoas, movidas pelo consumo.
Quando mergulhamos em Malapascua observamos muitas algas, pneus e plástico, além de  surtos de crown-of-thorns, já que os inimigos naturais foram devastados.

Crown of Thorns, espécie de estrela do mar que come corais.
Inimigos naturais foram devastados.

Um crown-of-thorn come duas vezes o seu próprio tamanho de um dia, o que ameaças drasticamente o eco-sistema dos corais. Micro-partículas de plástico se misturam ao plâncton afetando toda a cadeia alimentar dos oceanos. A pesca com dinamite também destrói grande parte da vida marinha.


Apesar de parecer um coral artificial, e até servir de abrigo para alguns peixes, pneus e outros entulhos pernacem por centenas de anos liberando lentamente toxinas e microparticulas, que contaminam a água e toda a cadeia alimentar do região, incluindo plânctons.
Agora estamos em uma balsa em direção a Bohol, Ilha onde se encontram as Chocolate Hills, muitos terraços de arroz, praias desertas e o tarsier - um dos menores primatas do mundo com 10 cm de altura! Vamos lá!